Blog / Revista Holiste

Novos caminhos no tratamento da esquizofrenia | Revista Holiste

Revista Holiste 04/09/2018

Especialistas destacam a importância da reintegração social e da devolução da autonomia ao paciente portador de esquizofrenia.

Certo dia, um indivíduo não vai trabalhar. Tensão e ansiedade tomam conta do seu ser. Ele sente que algo está acontecendo, mas não sabe dizer o que é. Então, sem avisar a ninguém, passa o dia deitado, tomando café e fumando. A família percebe o seu olhar distante, como se estivesse em outro mundo. Ele não se importa com o que acontece ao redor, não cuida da higiene pessoal nem se alimenta direito. A breve narrativa descreve os sintomas que podem estar presentes em um caso de esquizofrenia. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 1% da população mundial apresenta um quadro de esquizofrenia, uma doença caracterizada pela perda do contato com a realidade e pela presença de delírios e alucinações. Só no Brasil são mais de 150 mil novos casos de esquizofrenia por ano.

Uma nova visão sobre o paciente esquizofrênico tem mudado a abordagem terapêutica do mesmo, que já não é visto como um incapaz, mas como alguém que pode manter suas atividades cotidianas através de um acompanhamento profissional adequado. Todas as etapas do tratamento caminham em paralelo à iniciativa de reintegrar o paciente à sociedade e devolver sua funcionalidade. Dentro deste novo paradigma, a superação é a meta, materializada nos objetivos estipulados para a vida do paciente. “A definição tem a ver com vencer desafios. Esse deve ser o objetivo maior do tratamento de pacientes portadores de esquizofrenia, e não apenas a remissão ou redução dos sintomas”, afirma a psiquiatra Fabiana Nery.

Remédios são aliados

“O tratamento medicamentoso ajuda a controlar sintomas de alteração do pensamento e comportamento”, afirma o psiquiatra Victor Pablo. Mas, para evitar que os sintomas retornem ou piorem, os remédios precisam ser tomados com a frequência determinada pelo psiquiatra. De acordo com Fabiana Nery, é justamente a regularidade do tratamento medicamentoso e o controle dos sintomas que vão permitir a continuidade das atividades e a reintegração social, o que é fundamental para reduzir os impactos da doença na vida funcional do paciente.

Envolvimento da Família

Segundo o psicólogo Rogério Barros, a família tem papel fundamental no tratamento do paciente por constituir a esfera social mais próxima. “Os parentes são a principal parceria para que o paciente cumpra o plano terapêutico fora do ambiente e do contexto de internação. O psiquiatra ou terapeuta apenas tem contato com o paciente no momento da consulta, o que pode ser muito pouco para assegurar a continuidade correta do tratamento. O suporte da família é fundamental e, quando ele é aliado no percurso do tratamento, pode potencializar seus efeitos.”, comenta.

André Dória, também psicólogo da Holiste, afirma que durante o tratamento é comum que os familiares fiquem confusos não só com o quadro do paciente, mas com seus próprios sentimentos em relação a ele. “O paciente, na maioria dos casos, é alguém por quem nutrimos afeto, expectativas, e tê-lo como alguém que pode oferecer risco pode ser perturbador para a família”, comenta. “Nesse sentido, a escuta profissional e o gerenciamento de conflitos, mais do que um simples procedimento padrão, pode ser de fundamental importância para manter a harmonia familiar”, completa.

Entenda a doença

A esquizofrenia afeta regiões do cérebro que estão ligadas à forma como cada um entende o mundo. “Geralmente, ocorre uma diminuição da função do lobo pré-frontal, ou seja, do lugar responsável pelo pensamento e associações, e uma hiperatividade do sistema límbico, o centro das emoções”, explica Victor Pablo.

A origem da doença ainda não é totalmente conhecida. No entanto, existe um componente genético importante, de acordo com Fabiana. O risco sobe para 13% se um parente de primeiro grau for portador da doença. “Quanto mais próximo é o grau de parentesco, maior é o risco”, pontua.

Mas, a hereditariedade não é a única responsável por desencadear a doença. Estudos demonstram que a causa pode vir de uma combinação de fatores ambientais e estrutura química cerebral alterada.

Outros sintomas

Alucinações, desorganização do pensamento e alteração do comportamento fazem parte do conjunto de sintomas da esquizofrenia. Um dos mais comuns é o delírio persecutório, quando o indivíduo acredita que está sendo perseguido e observado por pessoas que tramam alguma coisa contra ele. Outro sintoma bastante frequente são as alucinações auditivas: “O doente escuta vozes que dão ordens e comentam o que ele deve fazer. São vozes imperativas que podem levá-lo ao suicídio, mandando que pule de um prédio ou de uma ponte, por exemplo”, diz Fabiana.

Outro sintoma, este mais resistente ao tratamento, é a diminuição da afetividade, quando o paciente reduz a capacidade de sentir alegria ou tristeza condizentes com a situação externa. “Existem, ainda, os sintomas cognitivos, como baixo funcionamento intelectual, dificuldades para manter-se focado ou prestar atenção em atividades cotidianas, além de apresentar problemas com a memória de curto prazo”, lista a profissional.

Comentários

Inscreva-se para receber conteúdo sobre Psiquiatria e Saúde Mental

Cadastrar