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SE O VÍRUS FALASSE | por Victor Pablo

Artigos 24/07/2020

Em artigo publicado no jornal A Tarde, o psiquiatra Victor Pablo da Silveira expõe o misto de sensações provocado nas pessoas pela pandemia do coronavírus.

Suave ou terrivelmente, a vida foi congelada de repente. A partir do fevereiro de 2020, o planeta se tornou um extenso país do novo coronavírus. Desde nossos bisavós, não se experienciava tão explícita incerteza no estar vivo. Generalizando-se, a infecção parece que quase não mata, mas também parece que qualquer um pode morrer de uma hora para a outra. Como ficará a paciência dos meus olhos sempre tão ávidos por respostas satisfatórias? Sinto minha mão querer se transformar na garra de um tigre faminto.

O que significa isso tudo que está acontecendo? Por quê? À meia-noite, o vírus me envia um telegrama com um espelho dentro. Tenho um encontro comigo mesmo. Neste momento, a indiferença não me consolará infalível porque depois sempre virá a realidade ociosa relembrando esta prisão entediante. Antes, havia o frisson desgastante da rotina que dava sentido para o ontem se transformar em hoje e amanhã. E era eu sempre me forçando dispersar em outro amanhã de depois dos mais distantes amanhãs para ter ao menos um vislumbre frágil sobre o que seria de mim neste mundo pasteurizado.

Você não tem importância! – Era a voz do vírus em meus pensamentos? É o silêncio, esse insuportável deserto de solidão caótica. Mais cedo ou mais tarde, para consolar minha angústia, a mente acabará enviando impressões autoindulgentes e até vozes – vagalumes se for necessário. O vírus não tem grandes intenções. As pessoas de fé fazem ressoar palavras de ordem – Coragem! Misericórdia! – Os jovens ansiosos e fatigados procuram uma saída e suspiram – O que serei na vida? Como ser alguém? Onde me salvar de tanta demora?

A morte do passado me tornou um imenso recém-nascido flutuando neste longo agora. Sou a covardia de óculos neste mundo que se tornou um acaso perdido. Tudo ao redor e dentro de mim é dispersão. Assim, será mais fácil tolerar a falta de significado. Devo depor minhas armas para reformular meu pertencimento ao reino dos tímidos conformados. Mas, não! Não! Não posso ser ingrato a este eu que, graças ao esforço de uma coleção de pensadores e sábios, levou Descartes libertá-lo das metafísicas milenares. Este eu que Heidegger exaltou ao status de Eu-Sendo. E Camus evocou no Eu-Herói liberto abraçando e esmagando o quase absurdo da existência.

A peste virótica testa minhas virtudes. Cada um de nós tem o dever de tentar ser o príncipe desta cidadela antiga e caudalosa. Pois lá, na abóbada de alabastro do templo da humanidade, alguém esculpiu com fogo sobre dura pedra, adaptado de Catão: “Nunca estará menos só do que a sós consigo mesmo. Nunca estará mais ativo do que contemplando sua insensibilidade e percebendo sua ignorância.”

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