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Recriando vínculos através do Acompanhamento Terapêutico (AT)

Revista Holiste 25/10/2017

Acompanhamento Terapêutico (AT) é um importante recurso, utilizado para ajudar o paciente a resgatar sua autonomia, reorganizar sua rotina e se ressocializar

Desenvolvido para ser um instrumento de monitoramento da rotina do paciente psiquiátrico – com o objetivo de reorganizá-la, resgatar sua autonomia e promover sua reinserção no convívio social – o Acompanhamento Terapêutico (AT) é um trabalho clínico que também permite gerenciar conflitos, identificar dificuldades e limites e, em alguns casos, fazer com que a pessoa retome a construção do seu projeto de vida. “Nos transtornos mentais, uma das consequências negativas é a limitação do sujeito em sua relação com o outro, consigo mesmo e até com seus atos. Por isso, muitas vezes, além do tratamento medicamentoso e psicoterápico, o paciente precisa reestabelecer seus vínculos perdidos, reorganizar suas atividades, e esse trabalho de intervenção na vida cotidiana tem gerado bons resultados”, afirma Cláudio Melo, psicólogo e acompanhante terapêutico da Holiste.

Em Salvador, a Holiste é pioneira no serviço de Acompanhante Terapêutico(AT), que pode ser realizado em encontros na casa da pessoa ou em outros lugares que fazem parte da sua rotina. “O AT atua nos ambientes de vivência do paciente, com o objetivo de reintegrá-lo. Mas, não raro, o trabalho pode se iniciar ainda na internação, facilitando essa reintegração no momento da alta”, explica a acompanhante terapêutica da Holiste, Isabel Castelo Branco. Segundo a terapeuta, a prática do AT não é isolada, e para exercê-la é preciso contar com uma supervisão, envolvendo discussões em grupo com os profissionais da psiquiatria, da psicologia e com outros terapeutas. “Como na Holiste temos uma equipe multidisciplinar, oferecemos um plano de ação conjunta, para que a prática não se torne inconsistente. O AT não dá conta do tratamento sozinho”, complementa.

Segundo Cláudio, é comum a pessoa com transtorno mental externar, em algum momento, que não se sente inserido no mundo ou pertencente à sociedade. “Neste cenário, o AT entra para ajudá-lo a encontrar sua forma de ‘entrar no mundo’ outra vez, voltar a estabelecer relações sociais, o que passa, também, pelo reencontro pessoal, pela redescoberta. Dessa forma, é um trabalho não só de ressocialização, mas de autoconhecimento”, detalha.  O psicólogo lembra que, em meados do século passado, os pacientes em tratamento psiquiátrico já conseguiam estabilizar alguns sintomas, como alucinações e delírios, entre outros; no entanto, nem sempre conseguiam recuperar sua vida normal, apresentando dificuldades de relacionamento, de sair de casa, de voltar a trabalhar e estudar. “Foi a partir dessa necessidade que surgiu a ideia do acompanhamento terapêutico, como instrumento de ressocialização para auxiliar o paciente a enfrentar as limitações da doença mental, inclusive na fase pós-internação”, conta.

O AT é o profissional que, além de acompanhar o paciente em suas atividades sociais e de lazer, irá auxiliar na convivência sociofamiliar, supervisionar a adesão ao tratamento e o cumprimento das orientações médicas. De acordo com Isabel, é importante destacar que o monitoramento realizado por ele é embasado tecnicamente. “Não é o simples vigiar ou olhar o que o sujeito está fazendo. Esse trabalho ainda é muito confundido com o de um cuidador, ou de alguém que sai para passear com o paciente. São atuações completamente distintas. Em nossa abordagem, construímos um elo de confiança através dos acordos estabelecidos, nos tornando parceiros do paciente no seu processo de tratamento”, esclarece.

Para o psicólogo, é um trabalho de muita responsabilidade, atento e constante. “Em uma boate com o paciente, por exemplo, o AT fica o tempo todo em alerta. Observamos como ele se comporta, se está vulnerável em alguma situação; tentamos identificar sinais que possam indicar uma ansiedade ou qualquer tipo de transtorno. Outro ponto importante é fazer com que ele se sinta bem naquele local e se insira no ambiente”, revela.

Cláudio aponta que o AT permite ‘mapear’ o paciente, suas demandas e fragilidades. Esse trabalho gera um arsenal de informações sobre ele desde o primeiro encontro, o que auxilia na elaboração de um diagnóstico e na definição do melhor tratamento para a patologia identificada. “Existem pacientes com dificuldade na fala, na compreensão de si mesmos ou em aceitar o mundo em que vivem. Em cada caso temos de utilizar uma abordagem diferente, para ficarmos mais próximos dessa pessoa e ganharmos sua confiança. Buscamos ter algum elo de identificação que possibilite criarmos uma parceria”, salienta.

De acordo com Isabel, o AT é um facilitador para que o paciente viva para além da doença, mesmo dentro de suas limitações. “Às vezes, temos que fazer um trabalho apenas de escuta, ouvir sua demanda e utilizar esse processo de esvaziamento como forma de identificar o melhor caminho para ajudá-lo”, diz. Segundo Cláudio, o tempo de resposta de cada um varia, mas todo avanço é válido. “Diante de um paciente que há meses não sai de casa, por conta de uma paranoia ou de um quadro depressivo, por exemplo, que desfez todos os vínculos familiares, de amizade e afetivos, é preciso começar indo na casa dele algumas vezes, progredir fazendo com que ele desça até o playground do prédio, levá-lo a um café próximo à sua residência, e gradativamente você já consegue que esse indivíduo volte a estudar ou a ter alguma outra atividade coletiva”, exemplifica.

ASSISTA AO VÍDEO SOBRE ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO E SAIBA MAIS

 

Indicações

 O Acompanhamento Terapêutico (AT) pode ser aplicado na maioria dos diagnósticos da saúde mental. “Para identificar essa demanda é preciso ter um olhar atento. Se o paciente apresenta algum sintoma em função do transtorno mental, que não melhora com o uso de medicação e isso o impede de ter uma vida plena, o AT pode ser indicado”, defende o psicólogo, destacando que, diferentemente do que se pensa, o recurso não é recomendado somente para pacientes esquizofrênicos. De acordo com Isabel, o encaminhamento pode acontecer após a internação. Pacientes com dificuldade em reestabelecer os laços sociais, aqueles que recusam o tratamento, ou ainda quando há outros tipos de dificuldade, como um idoso com limitações ou crianças com um sério quadro de TDAH, por exemplo. “A periodicidade do tratamento também varia caso a caso. Algumas pessoas precisam de encontros uma vez por semana, outras, mais”, esclarece. Na Holiste, a prática já é adotada em pacientes com transtorno bipolar, depressão, dependência química, fobia e ansiedade, dentre outros. “Para todos os casos temos uma modalidade de AT. Há casos que não imaginávamos que seria tão útil, mas, após começarmos o acompanhamento, os resultados foram impressionantes”, relata Cláudio.

 

Família como parceira

Resultados positivos, no entanto, nem sempre são compreendidos pela família. “Existem casos em que os parentes criam a expectativa de que o paciente volte a fazer determinada coisa. Pode ser que ele não volte a fazer a velha atividade, mas desenvolva uma outra habilidade, nova, que lhe ofereça uma qualidade de vida muito melhor. Nesses momentos, nos aliamos ao paciente e procuramos passar aos familiares seus verdadeiros anseios”, destaca Isabel.

Por isso, o trabalho junto à família é de extrema importância para o sucesso do tratamento. “Convidamos os familiares a serem parceiros no processo de acompanhamento. Orientamos, passamos instruções de manejo com aquele sujeito. Além disso, escutar os que convivem com o paciente nos ajuda nos encaminhamentos necessários”, explica. A profissional também acredita que com o AT é possível reduzir a incidência de crises agudas. “Só não podemos deixar de pontuar que, apesar dos bons resultados, o paciente pode apresentar cronicidade dos sintomas. Ainda assim, temos exemplos de pacientes que passavam seis meses fora do hospital e um ou dois anos internado; depois do Acompanhamento Terapêutico, um deles já está há quase três anos sem precisar do internamento. Houve recaídas, mas com o suporte do AT conseguimos reverter o quadro”, lembra.

 

 Repostas ao tratamento

 O grande diferencial da Holiste é o trabalho em equipe. “Todos os pacientes acompanhados por nós são discutidos em reuniões periódicas de avaliação. Fazemos supervisão em grupo e avaliamos caso a caso. É um olhar de equipe. Trabalhamos em conjunto com o Hospital Dia e com a internação. Desta forma, o AT é complementar a todos os serviços que oferecemos aqui, seja para os pacientes internados ou não”, afirma Cláudio Melo.

Já Isabel destaca o processo de aproximação com o paciente como diferencial da Holiste. “Ainda na internação, começamos a formar uma aliança terapêutica, conhecer a pessoa, formar um vínculo, para que ela  nos aceite no seu cotidiano. A internação é caracterizada por fases agudas do transtorno, e o suporte do AT passa segurança à família, que terá o respaldo de uma equipe de referência quando ele sair”, finaliza.

 

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