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NO TRÁGICO, A GENTE SE REVELA | por Raíssa Silveira

Artigos 31/08/2020

Em artigo publicado no jornal A Tarde, a psicóloga Raíssa Silveira fala sobre a resistência dos idosos em cumprir o isolamento social e a reação dos familiares frente a esses comportamentos.

 

Das situações que tenho ouvido relatos nesse período de pandemia, tanto na esfera privada quanto na profissional, a desorientação e o desespero de famílias relacionados à resistência dos idosos em cumprir o isolamento social são recorrentes. Posicionamentos irredutíveis, transgressores e até agressivos, por parte dos “velhinhos do grupo de risco”, aparecem nos relatos de filhos e cônjuges, seguidos de questionamentos como: “Será possível? Parece que não entendem a gravidade do problema?”. Mas, até que ponto essa questão está relacionada à incapacidade de compreender a seriedade da pandemia?

O coronavírus, com seu alto poder de contaminação, apresenta maior letalidade nos idosos com comorbidades clínicas. Arrisco afirmar que todo mundo já teve acesso a essa informação e entende o que ela traz, pelo menos aqueles indivíduos cognitivamente preservados. Porém, enquanto sujeitos, eles assumem uma postura reativa ao desamparo, à privação, à impotência e à vulnerabilidade que a presença do vírus impõe, negligenciando os cuidados preventivos necessários. Com a possibilidade da morte e as mudanças drásticas tributárias da nova normalidade pandêmica, surgem questões sobre rotina, autonomia, poder decisório e contato físico. Afinal, temos mesmo o livre arbítrio? Como se regulam as questões suscitadas pela proximidade da morte eminente?

Neste cenário, quanto maior o medo e a angústia, maior o apelo subjetivo aos mecanismos de defesa primários de cada um. Há quem se utilize da negação, consciente ou não, do medo que tem; nesses casos, começam a surgir argumentos do tipo: “Pode até ser, mas as pessoas estão exagerando”, “Minha imunidade sempre foi boa, não sou de pegar essas coisas”, “Deus está comigo” ou, ainda, “Não é você que vai me dizer agora o que devo fazer”.

As reações não se resumem à teimosia e enfrentamento. Há aqueles que deprimem, têm crises de ansiedade, comem de forma desenfreada, compram mais do que deveriam, buscam se anestesiar através da bebida, enrijecem-se nos protocolos e evitam diálogos, não aceitando qualquer tipo de interferência dos filhos no seu funcionamento e não encontrando qualquer via de sublimação. O simples confronto direto pode reforçar ainda mais essas defesas sintomáticas. Contudo, aprendemos com a psicanálise a apostar na escuta e dar espaço a palavra, ao invés de querer deter o mal-estar, e quem sabe ajudar o indivíduo a traduzir o que se revelou através do evento trágico. Com a escuta é possível estabelecer algum tratamento ao medo, inclusive ao medo de ter medo (do desamparo, de se sentir impotente, de se sentir fragilizado e vulnerável), expresso de modo tão marcante na resistência de alguns idosos em relação às novas medidas de prevenção.

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