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Na linha do tempo

Revista Holiste 03/05/2016

A saúde mental de crianças e idosos requer cuidados específicos, por serem fases de grandes transformações cerebrais

 

Vencidos alguns estigmas em torno do assunto, aos poucos o público geral tem se dado conta do quão frequente os transtornos mentais são em seu meio social. Alguns estudos apontam que aproximadamente um terço das pessoas apresenta alguma desordem mental no decorrer da vida. Normalmente, as primeiras crises ocorrem durante o início da vida adulta, como observa o psiquiatra Victor Pablo da Silveira: “Geralmente, os transtornos mentais se manifestam na faixa etária do adulto jovem, entre os 18 e os 25 anos de idade, quando ocorrem os últimos estágios de maturação do sistema nervoso central, as primeiras exposições a substâncias psicoativas e diversas mudanças de vida que atuam como estresse psicológico. Portanto, o debate ampliado a respeito da modulação da saúde mental no decorrer da vida é relevante e precisa ser estimulado”.

Em faixas etárias extremas, infância e terceira idade, a identificação de um quadro de transtorno mental se torna algo mais complexo, devido a algumas características comportamentais e fisiológicas destas fases, que por vezes se confundem com o que poderia ser considerado um sintoma. Por isso, frequentemente a família só percebe que algo errado está acontecendo quando a doença já está avançada. “A família é a ponte mais segura entre esses seres fragilizados e os profissionais especializados” destaca Michelle Campos, terapeuta ocupacional. “É dramático, em saúde mental, o intervalo de tempo que se leva entre o surgimento dos primeiros sintomas e a busca de ajuda adequada. Isso quase sempre provoca rupturas maiores e agrava o prognóstico, mas a família não deve ser culpada por isso, precisamos difundir essas orientações”.

 

Infância em foco

Os sinais de que algo possa estar errado na saúde mental infantil são compartilhados por quase todas as síndromes: hiperatividade, impulsividade, comportamento desafiador e violento, isolamento social, queda do rendimento escolar e medo de separar-se da companhia dos pais. Isso torna o diagnóstico psiquiátrico nessa faixa etária mais complexo, pois confunde-se, inclusive, com quadros que não são necessariamente um transtorno mental.

Mas, o que leva uma criança a sair do estado normal de saúde mental? Fatores genéticos estão presentes, frequentemente associados ao estresse infantil crônico relacionado a condições de abuso ou maus-tratos, negligência familiar, bullying, núcleos familiares conflituosos e convivência com meios sociais precários e de risco.

Autismo e outros atrasos mentais costumam ser facilmente identificados e diagnosticados nos primeiros anos de vida, devido às aparentes deficiências motoras, de comunicação ou de relacionamento interpessoal. Outros transtornos, geralmente negligenciados e tratados como algo menor pelos pais, passam despercebidos: tiques motores e vocais, tricotilomania, fobia social e transtornos alimentares são alguns dos mais comuns. Além de indicarem que algo pode estar errado, estes comportamentos podem levar a criança a sofrer bullying, ocasionando um possível isolamento social.

O primeiro passo de qualquer tratamento é a observação. É preciso estar atento a todo e qualquer sinal dissonante daqueles apresentados comumente pelas crianças. Segundo a psicóloga Daniela Araújo “Os pais devem observar se tudo flui de uma determinada maneira e, de repente, algo começa a acontecer de forma diferente. Tudo que é estranho, se repete e gera angústia na criança deve ser identificado como um sinal de necessidade de acompanhamento”, diz.

O cuidado com o diagnóstico na infância é sempre reiterado pelos profissionais. “Criança é agitada por essência, não é fácil diagnosticar, precisamos ser cautelosos e observar bastante o grau de falta de atenção ou de agitação que a criança tem para, só assim, identificar algum tipo de problema. Há muitos casos de exceção em torno disso”, alerta Daniela. Especificamente na primeira fase da vida, o auxílio médico é procurado pelos pais ou pela escola, já que crianças muito pequenas não compreendem a dimensão dos sintomas e não possuem maturidade para expressar o sofrimento de forma objetiva. Já os adolescentes conseguem, por vezes, expressar o que estão sentindo e buscar ajuda por conta própria.

É importante alertar para a tendência de negação dos pais, pois existem interpretações pejorativas do diagnóstico psiquiátrico infantil, o que leva ao atraso do início do tratamento e consequente agravamento do quadro. Segundo o psiquiatra Lúcio Botelho: “O tratamento envolve uma equipe multidisciplinar ou interdisciplinar, que trabalha não apenas os sintomas e prejuízos, mas também o fortalecimento das habilidades que ajudarão a criança a se inserir melhor na sociedade”. Dr. Lúcio ainda destaca a individualidade como matriz para adoção de tratamentos psicoterápicos e farmacológicos.

Sobre o tratamento medicamentoso, o psiquiatra reforça que o desenvolvimento da criança e do adolescente devem ser levados em consideração, a exemplo do metabolismo, da maturação do cérebro e da distribuição da droga pelo corpo. “Em linhas gerais, deve-se tentar intervenções não medicamentosas para a maioria dos quadros leves e moderados. Mas quando uma condição mental retarda ou compromete o desenvolvimento infantil, o uso de remédios pode contribuir para a retomada de uma condição plena, com a socialização normal, além da preservação da autoestima”, afirma.

 

Terceira idade

Do outro lado da linha da vida, os cuidados são outros.  Parcela bastante significativa da população mundial, os idosos no Brasil já são mais de 23 milhões, e a estimativa do IBGE é que daqui a dez anos o país ocupe o 6º lugar em número de pessoas com mais de 60 anos no mundo. Com o envelhecimento, diversos transtornos mentais de intensidade moderada a leve, que até então não haviam sido detectados, podem se agravar.

De acordo com Michelle Campos, terapeuta ocupacional especializada no atendimento a idosos, “A depressão e a demência são  os  transtornos mentais  mais frequentes  na  terceira  idade”.  Michelle reforça que familiares e pessoas próximas são fundamentais na identificação de eventuais problemas no idoso. “O envelhecimento é um processo natural e não é sinônimo de incapacidade ou dependência, é preciso que os familiares  estejam  atentos  a qualquer mudança de comportamento”. Em casos de transtorno mental na terceira idade, é comum que o idoso apresente desinteresse na realização de atividades básicas de sua rotina, como tomar banho, comer, sair de casa, se comunicar com outras pessoas e, em alguns casos, observa-se a diminuição da capacidade de sentir prazer ou alegria, pensamentos pessimistas, sensação de cansaço,  alteração do sono,  alteração na memória, desorientação temporal e espacial. A  partir  da  observação  inicial  da  família,  o  transtorno  somente deve ser diagnosticado por um profissional de saúde mental.

Para o psiquiatra Vitor Pablo, também especialista neste público, a terceira idade é uma fase crítica pela incidência de uma série de transtornos físicos que impactam fortemente o sistema nervoso central. “Geralmente, é nesta fase que a carreira alcoólica dos abusadores que conseguiam ‘camuflar’ seu descontrole chega ao fim, seja por conta da restrição ao uso da bebida ou pelo desenvolvimento de lesões cerebrais provocadas pelo álcool. É muito comum o agravamento de sintomas ansiosos e fóbicos, além da ocorrência de estados confusionais agudos. Doenças cardiovasculares, demência senil, diabetes e outros quadros clínicos podem ocasionar danos cerebrais que desencadeiam elevações do humor, alucinações auditivas e visuais, ilusões persecutórias e outros sintomas que merecem acompanhamento psiquiátrico”, alerta.

Segundo o psiquiatra, é bastante comum uma pessoa acima de 60 anos desenvolver sintomas depressivos e não ser percebida como ‘mentalmente alterada’, por questões culturais que atribuem ao idoso um padrão comportamental mais reservado e afastado da vida mental dos sujeitos em sua volta.  “Os comportamentos de reclusão, a insônia, o distanciamento social e a dependência de terceiros para manter suas rotinas são culturalmente aceitos, mas também são os principais sinais de que algo possa estar errado com a saúde mental do idoso”, destaca.

Verificada a necessidade de um tratamento psiquiátrico, prioriza-se o atendimento multidisciplinar com foco nas necessidades do idoso, considerando sua subjetividade e seus desejos. A equipe desenvolve um trabalho voltado para o estabelecimento de um vínculo de confiança com o paciente, e para intervenções que proporcionem ao idoso uma maior autonomia, a fim de que ele possa conviver e se desenvolver como sujeito criativo no seu meio social, apesar dos seus limites e dificuldades.  Além do acompanhamento psiquiátrico e medicamentoso, durante o tratamento é construído um plano terapêutico individualizado onde são traçados objetivos,  estabelecendo assim uma  rotina de atividades terapêuticas diversas. Essas atividades são estratégias de intervenção que visam a diminuição dos sintomas e aumento da autonomia e capacidade funcional.

Michelle destaca a importância do paciente se ver conectado ao mundo externo, se sinta parte do meio social, através de atividades terapêuticas externas como:  idas  à cinemas, teatros, museus, restaurantes, feiras de artesanato, shoppings, clubes, entre outras.  Essa proposta visa  estimular o sujeito a lidar com suas dificuldades, estreitar os laços  com o mundo externo, resgatar memórias e exercer sua cidadania, estimulando o idoso a resignificar essa fase da vida  e criar novas perspectivas.

O aumento da longevidade dos indivíduos nas últimas décadas e a previsão do envelhecimento das populações torna a saúde mental do idoso um campo estratégico para o planejamento das cidades do futuro, a questão dos custos desta faixa etária para os sistemas de saúde e para aumentar o aproveitamento de sua experiência e capacidade intelectual. Nos dias de hoje, as aposentadorias estão sendo reinterpretadas como um retiro precoce e desnecessário da vida social. Os recursos médicos e os conhecimentos de saúde atuais permitem uma transcendência eficaz da qualidade de vida deste público, deixando esta última etapa da vida mais funcional e plena.

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