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Filmes e Cultura

Revista Holiste 03/05/2016

O uso de filmes no tratamento de pacientes com transtornos mentais pode trazer benefícios significativos.

A resposta de cada indivíduo à atividade terapêutica varia de acordo com o caso, e sua eficácia não está determinada pela relação entre a doença apresentada na obra e aquela que acomete o paciente. Assim, a exibição de filmes que abordam o campo psi tem como fundamento suscitar discussões e debates entre pacientes, familiares e amigos, provocando uma identificação e estimulando sua autocrítica. Por meio do mundo cinematográfico, o indivíduo que apresenta um transtorno mental pode falar de si, encontrar novas formas de lidar com seus afetos e questões e, enfim, tratar o que neles é tão singular: sua forma de estar no mundo.

Nesse sentido, os profissionais da Holiste indicam algumas obras que abordam transtornos mentais e que podem auxiliar no entendimento desse mundo particular. Confira!

 

Melancolia

Por Cláudio Melo, psicólogo e psicanalista

O filme “Melancolia” aborda a depressão a partir da queda dos ideais, neste caso, a perda da crença em Deus. Todas as figuras que podem representar algum ideal masculino, de ordem ou fé na vida, vão deixando cair suas máscaras ao desenrolar da trama: o marido que parece amar a protagonista, mas a abandona em nome de sua dignidade; o pai preocupado, mas que revela apenas o seu egocentrismo; o chefe que no início mostra-se solidário e afetuoso, mas que termina por expor interesse único pela produtividade da protagonista; por fim, resta apenas o seu cunhado, um rico e dedicado pai de família que por não suportar o apocalipse iminente dá cabo à própria vida, abandonando a sua esposa e o seu amado filho sozinhos diante da tragédia final.

A carga de uma vida crua e sem esperanças, que esmaga o sujeito em sua limitada existência é representada metaforicamente por um planeta gigante que esmaga a terra, reduzindo-a a nada. Essa é a face subjetiva e cruel da melancolia que o sujeito deprimido encontra-se. Melancolia é um termo em desuso no âmbito científico desde Adolf Meyer, um psicopatologista do início do século XX, que propôs a substituição pelo nome depressão. Mas é Sigmund Freud quem dá a melhor definição da melancolia, em um texto de 1917, chamado “Luto e Melancolia”, em que Freud considera a melancolia um esvaziamento do interesse pelo mundo, como acontece com a personagem.

Hoje, o equivalente mais próximo da melancolia é a depressão maior, um transtorno mental grave, mas passível de tratamento e controle dos sintomas, o que possibilita ao sujeito uma vida muito próxima do normal.

Ficha Técnica:
Melancolia (2011, 2h10)

Direção: Lars Von Trier

Com: Kirsten Dunst, Charlotte GainsbourgAlexander Skarsgård

Gênero: drama

Nacionalidade: França, Dinamarca, Suécia, Alemanha

 

Depois da Chuva

Por André Dória, psicólogo

Com ou sem pai, Caio segue. Caio é um adolescente de classe média na Salvador de 1984. Mora com a mãe, e seu pai não passa de uma lembrança materializada em um aparelho de telefone.  No único momento do filme em que fala com o pai, em um telefonema, o que vemos é um tímido pedido para um encontro pessoal, que não parece ter sido o primeiro, e que recebe uma negativa aparentemente recorrente. Caio desliga o telefone com um misto de decepção e cansaço. O (des)encontro com o pai se confunde com a história do país, até então às voltas com um pai tirano e castrador após 20 anos de ditadura militar. Agora sem pai, o país vivia um processo incomum: naturalmente, o pai vem antes do filho; naquele momento o filho existia antes do pai. Mais do que isso: o filho escolheria o próprio pai.

A figura do pai é a primeira versão da lei, a primeira autoridade com a qual o sujeito se confronta. Não se trata aqui daquela lei do direito, escrita, que organiza e torna possível a convivência social. Trata-se de uma lei ainda mais fundamental, aquela que funda o sujeito, demarca suas fronteiras, organiza sua relação com o outro. Essa lei não vem por força física, pela violência. Vem pelo ato de nomear. O nome do pai une e separa a mãe da criança. A lei paterna, que demarca as fronteiras do sujeito, também se faz ver na cultura: Édipo e Jocasta se apaixonaram por não ter conhecimento do nome comum, o que mais do que os unirem como mãe e filho os separariam como homem e mulher.

A lei paterna, de alguma forma, orienta o sujeito no mundo. Ela não necessariamente precisa ser encarnada por um homem. Nas famílias atuais, nos chamados novos arranjos familiares, não é necessariamente um homem que encarna a função paterna. Essa não é uma questão de gênero, mas de função.

Caio, embora inquieto, aparenta um certo ar melancólico, uma certa economia de palavras e de sorrisos. Nesse sentido, lembra o personagem Scooby (do filme “Histórias Proibidas”, dirigido por Todd Solondz), adolescente entediado, quase letárgico, também às voltas com um pai. No caso de Scooby, um pai presente fisicamente, mas ausente de coerência entre discurso e ação.

Voltando a “Depois da Chuva”, um amigo mais velho de Caio assume um lugar de referência paterna para o garoto. A cena em que o amigo ensina Caio a atirar ilustra que pais podem ensinar coisas além do que andar de bicicleta. O impasse de Caio com sua filiação paterna ganha ares ainda mais intensos com o suicídio de seu amigo-pai. Enquanto isso, o país entra em comoção com a morte de Tancredo Neves.

O belo “Depois da Chuva” não é um filme que nos traz vereditos ou respostas absolutas. Prova disso é que, diante dos impasses de Caio ou do país, diante da falta de referenciais a partir dos quais buscamos nos orientar, podemos promover a criação, a saída singular que somente cada um pode inventar. Em determinado momento, Caio é eleito diretor do grêmio escolar. Não defendemos causas sem uma causa própria, particular. Embora as causas possam ser coletivas, a causa é sempre da ordem do indivíduo. Boa sorte, Caio.

Ficha Técnica:
Depois da Chuva (2013, 1h30)
Direção: Claudio Marques e Marília Hughes

Com: Pedro Maia, Sophia CorralAicha Marques

Gênero: drama

Nacionalidade: Brasil

 

 

Donnie Darko

Por Rogério Barros, psicólogo e psicanalista

Clássico cult, “Donnie Darko” conta a história de um jovem de subúrbio, estudante desajustado, considerado problemático por todos que o rodeiam. O que poderia ser uma trama previsível de conflitos adolescentes, dificuldades no amor e questionamentos sobre o sentido da vida, ganha um contorno diferente quando um novo elemento é acrescentado à história: o aparecimento de um o coelho tenebroso e gigante, cuja presença é percebida somente por ele.

A partir das visões do coelho assustador, que sempre trazia um conteúdo profético, Darko passa a cometer pequenos delitos e ações criminosas. “Donnie Darko” é desses filmes que nos deixam com uma pulga atrás da orelha. Afinal, o que é realidade? Trata-se de uma invenção?

Darko fabrica sua realidade com ajuda de um coelho gigante, que responde aos enigmas daquilo que ainda não consegue explicar: o mistério do tempo, da morte e do destino. A partir da alucinação do coelho, recurso que o adolescente se serve para aplacar as angústias recorrentes da sua idade, ele constrói uma verdade que serve para ordenar sua vida no mundo. Uma verdade psicótica delirante.

Aqui, as fronteiras entre o normal e o patológico, a realidade e a ficção se tornam questionáveis e nos fazem pensar: até que ponto nós mesmos, senhores de consciência, também não deliramos ao construir as nossas verdades?

“Donnie Darko” é uma aventura intrasubjetiva que vale a pena experimentar. Só não vale ter medo!

Ficha técnica:

Donnie Darko (2000, 1h44)

Direção: Richard Kelly

Com: Jake Gyllenhaal, Maggie GyllenhaalDrew Barrymore

Gênero: drama, suspense

Nacionalidade: EUA

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