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Eletroconvulsoterapia e sua eficácia | Revista Holiste

Revista Holiste 04/09/2018

De acordo com o relatório global apresentado no ano passado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas que vivem com depressão apresentou um aumento de 18%, entre 2005 e 2015.

Conforme a publicação “Depression and other common mental disorders: global health estimates” (Depressão e outros transtornos mentais comuns: estimativas globais de saúde), há 322 milhões de pessoas vivendo com esse transtorno em todo o mundo.

No Brasil, o relatório aponta que pelo menos 5,8% da população brasileira, o equivalente a 11.548.577 pessoas, são acometidas pela doença, e cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Os números impressionam, e a rapidez com que a humanidade vem sendo afetada de forma direta pelo chamado “mal do século” é assustadora. A boa notícia é que dispomos de diversos recursos terapêuticos eficazes no combate à depressão, e alguns deles são bastante conhecidos pelo público.

Utilizada no mundo inteiro, a Eletroconvulsoterapia (ECT) é uma das grandes aliadas no tratamento da depressão grave e de outros transtornos mentais, apesar do estigma que carrega até hoje. “A ECT tem índices de eficácia elevadíssimos. Já existem dezenas de estudos que comprovam sua superioridade em relação ao tratamento medicamentoso (que apresentam eficácia em torno de 60% e 70%). Nos casos de depressões primárias, o sucesso do tratamento com ECT fica entre 80% e 90%”, afirma a psiquiatra Fabiana Nery.

Ainda de acordo com Dra. Fabiana, a ECT promove uma reorganização do cérebro através da liberação e reequilíbrio dos principais neurotransmissores relacionados aos transtornos mentais, incluindo a serotonina, a noradrenalina, a dopamina e o glutamato.

O tratamento é completamente seguro e indolor, feito sob anestesia em ambiente hospitalar com toda a estrutura de monitoração cerebral e cardiorrespiratória (eletroencefalograma, eletrocardiograma e oximetria).  O procedimento dura entre 5 a 10 minutos, contando todo o tempo com a presença de um psiquiatra, um anestesista e um profissional de enfermagem. O paciente recebe alta no mesmo dia, podendo voltar às suas atividades normais minutos após o procedimento. Trata-se de uma ferramenta bastante eficaz no tratamento dos transtornos do humor, como a depressão e o transtorno bipolar e nas psicoses.

 

Desconhecimento  

Apesar do método ser praticado pelos principais hospitais e clínicas psiquiátricas do mundo, a falta de um conhecimento mais aprofundado sobre o assunto fez com que a ECT fosse, por muito tempo, incompreendida e equivocadamente associada às torturas com choque elétrico realizadas pela ditadura militar no Brasil. “É importante esclarecer que a pequena descarga elétrica utilizada no procedimento é realizada sob efeito de anestesia, e é necessária para causar uma convulsão cerebral controlada. Esta convulsão cerebral é indolor e não apresenta sinais clínicos musculares devido ao uso da anestesia. A convulsão é monitorada por meio de eletroencefalograma (EEG), dura alguns segundos, e é fundamental para o efeito terapêutico. A eletricidade é, apenas, o meio mais seguro para induzir a convulsão cerebral, que é a responsável pelo efeito terapêutico da ECT. No passado, a convulsão cerebral era induzida por altas doses de insulina e, portanto, oferecia mais riscos aos pacientes. Por isso esta técnica foi substituída pela indução elétrica”, acrescenta Dra. Fabiana.

Para o psiquiatra e diretor clínico da Holiste, Dr. Luiz Fernando Pedroso, a ECT é “o primeiro grande agente antimanicomial”, capaz de tirar milhões de pessoas de asilos e manicômios. Para o médico, a técnica tem o poder de recuperar muitos pacientes que estão desenganados, marginalizados e incapacitados para o trabalho, pessoas que estão com seu convívio social e familiar bastante prejudicados pela doença.

Segundo Luiz Fernando, o principal problema é que a prática ainda sofre os reflexos do movimento antipsiquiatria surgido no Brasil no início dos anos 2000: “Ainda se associa, de forma bastante deturpada, a ECT aos eletrochoques praticados como mecanismo de tortura, durante a Ditadura Militar. Tal conceito não tem qualquer amparo científico, servindo apenas como argumento para militância de grupos e que representa um total desserviço à população. Além de afastar as pessoas de uma terapêutica extremamente eficaz, esses movimentos político-ideológicos contribuíram para o caos do sistema de saúde mental do país, com o fechamento de hospitais e, consequentemente, com o aumento da mendicância, dos crimes ligados à doença mental e do número de pessoas com transtornos mentais no sistema penitenciário”, ressalta.

Há anos defensor da prática, que surgiu em meados dos anos 30 na Itália, Luiz Fernando é responsável pela propagação do método na Bahia e lamenta o descaso com o qual o poder público trata do assunto: “O sistema de saúde pública no Brasil anda na contramão do avanço da psiquiatria. Infelizmente, o governo limitou o acesso da população carente ao sistema de saúde mental pública, e os planos de saúde também não investem. Hoje, a ECT é realizada com anestesia, avaliação cardíaca e uma corrente elétrica com controle de intensidade e duração, o que permite uma aplicação segura e eficaz, inclusive em idosos e gestantes”.

O tratamento, de resposta rápida, apresenta resultados significativos a partir da sexta sessão, em média. É indicado após a avaliação do psiquiatra, considerando possíveis riscos e benefícios. Conforme as diretrizes da Associação Psiquiátrica Americana (APA), a ECT é um tratamento indicado quando há necessidade de uma melhora rápida e consistente (nos quadros de catatonia ou risco de suicídio), quando o paciente não responde aos medicamentos ou não pode toma-los devido a reações adversas.

SAIBA MAIS SOBRE O TRATAMENTO COM ELETROCONVULSOTERAPIA

 

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