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Dor: é preciso escutá-la | Por Cláudio Melo

Artigos 27/09/2016

A dor crônica tem forte correlação com o sofrimento psíquico. Diversos estudos, em variadas áreas da saúde, têm se ocupado dessa matéria. Algumas pesquisas afirmam que os sintomas psicopatológicos associados à dor crônica, como depressão e ansiedade, são responsáveis pela piora da qualidade de vida e a incapacitação profissional dos pacientes acometidos por essa síndrome.

O conceito da dor como um fenômeno exclusivamente fisiológico vem da tradição médica galênica e ganha impulso no século XVIII, através da visão mecanicista da medicina, que associa a dor a um processo predominantemente físico-químico do corpo. No entanto, o avanço nos estudos sobre a dor culminou numa definição mais ampla e multifatorial, difundida pela International Association for the Study of Pain (IASP) desde 1979, na qual a dor aparece como um processo subjetivo, independente da existência ou não de uma lesão tecidual.

John Bonica, uma das maiores referências no estudo da dor crônica, quando chefiou um departamento de anestesiologia em Washington, observou que haviam pacientes que não respondiam adequadamente aos tratamentos convencionais de bloqueio da dor. Eram indivíduos que apresentavam, além das dores, sintomas psíquicos e somáticos não diretamente associados às lesões anteriores, mas que se desenvolveram após o prolongamento do quadro doloroso. Bonica sustentou a proposição inovadora de que a percepção sensorial de dor é diferente da sua interpretação, ou seja: a dor é um processo subjetivo, resultante da interpretação que cada indivíduo faz dos estímulos dolorosos sensoriais.

Vale ressaltar que avanços científicos e técnicos na abordagem terapêutica da dor são considerados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como suficiente para o alívio da dor numa média de 70 a 90% dos casos. Entretanto, persiste o subtratamento das dores crônicas. Uma dúvida surge então: se existem técnicas eficazes de combate à dor, por que algumas pesquisas sugerem a existência de subtratamento dessa condição patológica?

É possível notar que, ainda hoje, predominam princípios terapêuticos, nosográficos e etiopatológicos que valorizam a relação exclusiva das dores com lesões teciduais ou disfunções fisiológicas. O grande problema é que estes princípios influenciam e predominam no meio dos profissionais responsáveis pelo tratamento da dor, chegando a serem adotados como critérios de políticas públicas e regulamentações na área da saúde, como acontece no próprio Ministério da Saúde do Brasil. Por outro lado, a própria experiência clínica evidencia a relação proeminente entre as dores crônicas e os fatores psíquicos.

Seria a negligência do psíquico, nos tratamentos das dores crônicas, a explicação para a persistência da dor nos casos onde o tratamento farmacológico sedativo deveria resolver? Será que falta a escuta psicológica e o devido tratamento psiquiátrico para os pacientes que, mesmo com dores provocadas por lesões concretas do corpo, padecem de um sofrimento psíquico negligenciado?

Acredito que, no tratamento das dores crônicas, o caminho não é apenas sedar momentaneamente a dor. É fundamental entender e tratar o sofrimento psíquico decorrente dela, retirando-o da invisibilidade na qual muitos outros tratamentos a colocam.

 

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