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Depressão: Nem sempre a tristeza é um sintoma | Entrevista Dra. Fabiana Nery

Depressão 22/05/2018
Entrevista com a Dra. Fabiana Nery sobre Depressão

Considerada a doença do século pela Organização Mundial da Saúde, a depressão é um transtorno que atinge 1 em cada 10 pessoas. Na maioria das vezes, vista como sinônimo de tristeza, a depressão possui um conjunto de outros sintomas associados, que serão fundamentais para a caracterização do diagnóstico.

A psiquiatra da Holiste, Fabiana Nery, foi a convidada do programa Band Entrevista para falar sobre a depressão, suas características e a importância de um tratamento adequado.

Segundo a psiquiatra, é importante que as pessoas se questionem: “Estou triste ou estou com um quadro patológico chamado transtorno depressivo?” De acordo com ela, a tristeza é um sentimento normal, natural, saudável e que faz parte da vida das pessoas. “Em determinados momentos da vida, o indivíduo irá passar por situações que o deixam triste, mas isso não significa que ele está com depressão e que carece de tratamento”, pontua.

Assista a entrevista completa

Manifestações clínicas

A tristeza não é o único sintoma da depressão, associado a este sentimento estão também a diminuição ou aumento de sono e apetite, sentimento de culpa, falta de prazer, mas principalmente um prejuízo no funcionamento global daquele indivíduo, dificultando ou incapacitando o mesmo de realizar suas atividades diárias. “Quando o indivíduo está acometido pela doença, a execução de atividades rotineiras exige um esforço e um gasto muito maior de energia do que o normal”.

Dra. Fabiana explica que a depressão pode ser apresentada de várias formas. A mais comum delas é a depressão anérgica, ou seja, sem energia, em que o paciente perde a vontade e o prazer de realizar suas atividades, fica introspectivo, prostrado a maior parte do tempo. Porém, existe também a depressão ansiosa, caracterizada por sintomas de angústia, inquietação, preocupação e agitação psicomotora. A doença pode inclusive se manifestar através de quadros psicóticos em que o indivíduo tem alucinações e perde completamente o contato com a realidade. “Desta maneira, podemos ter o mesmo diagnóstico, que no caso é a depressão, mas manifestada de diferentes formas a depender do indivíduo. É possível ainda que o paciente apresente o que chamamos de depressão mista, onde a maioria dos sintomas são de cunho depressivo, porém apresenta 2 ou 3 sintomas eufóricos ou de agitação”.

Nem sempre é preciso um acontecimento específico para que a doença se manifeste. “Na maioria das vezes ela é associada a um gatilho, mas às vezes é um somatório de acontecimentos. Sabe aquela questão da gota d´água? Não precisa ser um evento muito significativo para você ficar triste, às vezes o indivíduo está insatisfeito com uma conjuntura de vida e isto pode gerar uma tristeza”, explica.

A tristeza vai ser mais reativa ao ambiente quando o indivíduo está diante de um sentimento que não é patológico. “Então, se você está triste por algum motivo da sua vida, mas em determinado momento algo bom acontece, é bem possível que naquela situação você tenha uma sensação de bem-estar e de alívio. Na depressão isso é bem improvável, afinal ela é muito pouco reativa ao ambiente. Algumas pessoas acreditam que fazer uma viagem dos sonhos, por exemplo, fará com que melhorem daquele sentimento, mas se o indivíduo estiver realmente deprimido, ele irá levar a tristeza para onde estiver e a viagem não será suficiente para melhorar”.

O tripé da doença

De acordo com a psiquiatra, apesar da depressão ser uma doença com sintomas e tratamento específico, não existe uma causa única, e por isso ela é considerada uma doença de origem multifatorial, que se baseia em um tripé, onde fatores genéticos, ambientais e de personalidade se somam e interagem entre si. Quando não tratada da forma certa, a depressão se torna uma doença crônica e pode levar a morte através do suicídio.

Depressão Infatojuvenil

A depressão é um grande desafio quando se fala em avaliação do diagnóstico em crianças e adolescentes, até porque são mundos completamente distintos e as apresentações da doença são diferentes em cada faixa etária.

“A apresentação clínica da depressão na criança é diferente. Você não vai ver uma criança parada, triste, sem querer sair do quarto. O que geralmente será observado é irritação e mudança no padrão de comportamento, ou seja, se antes ela era amiga de todos os coleguinhas, agora ela passa a bater neles. Pode ter alterações de alimentação e de controle de esfíncter, por exemplo, já não usava mais fraldas e passou a urinar na cama”.

No adolescente o indicador continua sendo a mudança no padrão de comportamento, mas as características são outras. “Era extrovertido, mas agora está introvertido; era bom aluno, agora só tira notas baixas; gostava de sair com os amigos, mas agora só fica em casa isolado. Essas são algumas mudanças que devem servir de alerta para os pais, pois é sabido que a adolescência é marcada por uma fase de muitas alterações comportamentais e que às vezes é uma questão de crise existencial própria da idade e que vai passar”.

Segundo a médica, o que preocupa no adolescente é que por uma imaturidade no desenvolvimento de uma região específica do cérebro, o córtex orbitofrontal, responsável pelo pensamento, pela crítica e pela capacidade de não seguir os seus instintos, faz com que o adolescente seja muito impulsivo nas suas atitudes. “Quando você junta sintomas depressivos ou ansiosos com a impulsividade e imaturidade do adolescente você tem uma combinação explosiva, fazendo com que se tenha uma incidência maior de tentativas de suicídio nessa fase da vida”.  

Tratamento multidisciplinar

Em um quadro leve da doença mudanças socioambientais são bastante eficazes. Alimentação saudável, atividades físicas, rotina de sono são algumas das medidas que podem contribuir para diminuir a recorrência dos sintomas. Quando se trata de uma depressão moderada, que é quando o indivíduo apresenta um prejuízo funcional, é indicado o uso da medicação associado a outras medidas como psicoterapias, além dos hábitos saudáveis. Já a internação psiquiátrica é recomendada em casos graves em que o indivíduo possui risco de suicídio e precisa estar em um ambiente seguro até que a medicação comece a fazer efeito. “Muitas vezes essa proteção da internação é a diferença entre o paciente conseguir sobreviver àquele episódio e ter um desfecho letal”, conclui a psiquiatra.

Deprê ou Depressão?

A Depressão é o tema do novo vídeo da série “Saúde Mental na ponta do lápis”. Utilizando uma linguagem leve e lúdica, o vídeo explica detalhes sobre a doença e separa o que é mito e o que é verdade sobre a doença.

Assista ao vídeo: Deprê ou Depressão?

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