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A angústia de hoje, de ontem, ainda | Por Rogério Barros

Artigos 06/03/2017
Artigo do psicólogo Rogério Barros

O jornal Correio, publicou o artigo do psicólogo da Holiste, Rogério Barros sobre como os novos hábitos e comportamentos influenciam a relação com as angústias do nosso mundo contemporâneo.  Confira o artigo completo.

 


Novas formas de interação social, relacionamentos virtuais, condomínios de alta segurança, a troca da interação nas ruas para os jogos eletrônicos. De fato, o nosso mundo não é mais o mesmo de outrora. Não há mais a cadeirinha na porta de casa ao fim da tarde, a prosa longa com a vizinha, o pedido de um tantinho de açúcar e afeto. A relação com o tempo também se modifica, vinculando-se cada vez mais ao imperativo de produtividade contemporânea: estamos todos ligados aos smartphones, cumprindo afazeres laborais, cada vez mais distantes da interação emocionada com o próximo.

Atualmente, vemos surgir novos diagnósticos psiquiátricos que dão o tom do mal-estar que experimentamos no mundo contemporâneo. Como exemplo, temos a síndrome do pânico, transtorno bastante pesquisado por usuários da internet, tonando-se um nome vulgar, prêt-à-porter, utilizado por muitas pessoas para dar um contorno simbólico a angústia que se sente no corpo, sem a devida apuração do profissional especializado. Algo similar ocorreu na década de 80 e 90, quando a depressão e o consumo de prozac eram o modo como conseguíamos nomear o desconforto da angustia que experimentamos, apertando o peito e incomodando o estomago, apaziguando-a com o fármaco do momento.

Modificam-se os nomes. Distintos diagnósticos tornam-se mais frequentes em determinados momentos históricos, mas algo se mantém intacto: a angústia atravessa os tempos. Essa constatação nos serve para estabelecer uma interpretação sobre os novos sintomas que são tributários das modificações sócio tecnológicas.

Nessa perspectiva, não há uma mudança estrutural: a angústia continua sendo experimentada no corpo de forma incomodativa e pesada, dado a seu caráter excessivo, sem escoamento, estagnada. Se a angústia segue como principal manifestação do mal-estar ao longo dos tempos, a variação dos sintomas indica que o modo como lidamos com esse afeto é o que de fato marca uma diferença. Ou seja, o modo como atravessamos essa experiência é o que se modifica. O discurso dos cutters (pessoas que recorrem a automutilações), por exemplo, evidencia que o sintoma dos cortes tem o objetivo de apaziguar o sentimento de angústia que carregam, quando todas as outras medidas falharam para reduzir o mal-estar.

No século XIX, os escritores românticos utilizavam a poesia como um recurso para tornar a existência, no distante mundo das idealizações, possível e plena. Atualmente, porém, observamos que este uso da palavra como um bálsamo já não existe. Os novos sintomas trazem a marca do silêncio, enclausurando os sujeitos emudecidos nos seus corpos próprios, distanciando-os do contato com o outro. O que está em jogo, nesses casos, é a perspectiva do esfacelamento do laço com o outro: quando a angustia não consegue ser mais falada, os sintomas mudos tornam-se prevalentes.

Lacan, importante psicanalista francês, nos dá uma pista ao afirmar que a angústia é um afeto que não engana, pois ela não se permite velar.  Assim, as telas de tablets e smartphones, os diagnósticos de imagem que dispensam a leitura do médico, pois a imagem do corpo fala por si só, não aplacam a angústia permanentemente. Apostar na fala, num esforço de poesia quase romântico, mostra-se, ainda, como uma ferramenta possível para o tratamento disso que, incurável, atravessa os tempos.

 

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